terça-feira, 29 de março de 2011

ENTRE OS OPOSTOS, O MEIO



samsara

Desde sempre as mais variadas tradições falam sobre a trindade divina, e sobre aquele aspecto que vem resolver o problema da dualidade. 

Há um meio, moderador entre os opostos, queiramos ou não, entendamos isso ou não.

De certa forma, esse tema sobre os opostos, sobre as dualidades, sobre as parcialidades é ainda muito complicado por causa do tema em si mesmo, ou seja, é sobre parcialidades, opostos e dualidades, e a tendência é sempre estar em um dos lados de cada situação da vida, e quando estamos em um lado da questão, automaticamente excluímos o outro lado, nos agarramos as nossas convicções, e já partimos do pré-suposto que o outro lado está errado, não é o correto, é falho.

A realidade da vida é muito mais que isso, é muito mais que apenas uma possibilidade possível na dualidade, é muito mais que um ponto de vista na díade, é muito mais que certo ou errado, é muito maior que os opostos; e por isso o conflito, pois temos que lidar com esses opostos o tempo todo, diariamente na própria vida em que vivemos.

Essa questão dos opostos assombra o homem desde sempre, e com certeza, é um dos motivos ou impulsos principais na busca por resolver esse conflito que dói na Alma humana, e muito provavelmente, a partir dessa busca, as mais variadas tradições se dedicam a essa questão.

Segundo a psicologia, a psique, como a maioria dos sistemas naturais, tais como o corpo, luta para se manter em equilíbrio. 

Fará isso, mesmo quando suscita sintomas desagradáveis, sonhos assustadores ou problemas da vida aparentemente insolúveis. 

Se o desenvolvimento de uma pessoa foi unilateral, a psique contém em si todo o necessário para retificar essa condição.

A função compensatória empiricamente demonstrável operando em processos psicológicos correspondia a funções auto-reguladoras do organismo, observáveis na esfera fisiológica.

Compensar significa equilibrar, ajustar, suplementar. Considerava a atividade compensatória do Inconsciente como equilíbrio de qualquer tendência para a unilateralidade por parte da consciência.

O objetivo do processo compensatório parece ser o de ligar, como uma ponte, dois mundos psicológicos. 

Essa ponte é o símbolo; embora os símbolos, para serem eficazes, devam ser reconhecidos e compreendidos pela mente consciente, isto é, assimilados e integrados.



A essa integração é o que se pode chamar de função transcendente, e que conecta opostos.

Exprimindo-se por meio do símbolo, ela facilita a transição de uma atitude ou condição psicológica para uma outra.

A função transcendente representa um vínculo entre dados reais e imaginários, ou racionais e irracionais, preenchendo assim a lacuna entre a consciência e o inconsciente.

“É um processo natural”, escreve Jung, “uma manifestação da energia que se origina da tensão dos opostos e consiste em uma série de ocorrências de fantasias que surgem espontaneamente em sonhos e visões”.

Mantendo-se em um relacionamento compensatório com ambos, a função transcendente possibilita que a tese e a antítese se confrontem uma com a outra em termos iguais.

O que é capaz de unir estas duas é uma afirmação “metafórica (o símbolo)” que, ele próprio, transcende o tempo e o conflito, nem aderindo nem participando de um ou de outro lado, mas de alguma forma comum aos dois e oferecendo a possibilidade de uma nova síntese. 

A palavra transcendente é expressiva da presença de uma capacidade de transcender a tendência destrutiva de empurrar (ou ser empurrado) para um ou para outro lado.

Jung argumentava firmemente que a função transcendente não atua sem objetivo e propósito. 

De qualquer forma, possibilita a uma pessoa ir além de um conflito insípido e evitar a parcialidade. Seu papel na estimulação da consciência é significante. 

Fornece uma perspectiva diferente de uma puramente pessoal. Surpreende apontando, muitas vezes como que de uma posição mais objetiva, uma solução possível.

As especulações de Jung sobre a natureza da psique levaram-no a considerá-la uma força no universo, psique como um campo separado além das dimensões biológicas e espirituais da existência. 

Psique como “relacionamento” entre o corpo e o espírito, porque é na psique onde o relacionamento dessas dimensões ganha existência.

A superposição conceitual entre a psique e o self pode ser resolvida da seguinte forma: Embora o Self se refira à totalidade da personalidade, como um conceito transcendente, ele também possui a capacidade paradoxal de se relacionar com seus vários componentes, por exemplo, o ego.

A psique abrange esses relacionamentos e pode-se mesmo dizer que é formada desses dinamismos.

Na tradição esotérica, Israel Regardie, diz que o método de elevação da Kundalini, ou de conscientização da Essência, se dá através da “conciliação”  das energias “opostas” na Árvore, essa conciliação se efetua no pilar central, ou pilar do meio/equilíbrio, e é nesse equilíbrio onde nasce o Filho em Tiphereth, ou seja, o diálogo com o Sagrado Anjo, o Self.

Todas as sephiroth, como são chamadas essas emanações, abaixo daquela que é chamada Coroa, recebem atribuições masculinas e femininas (opostas), e a atividade entre sephiroth masculinas e femininas em “reconciliação” é um “filho” por assim dizer, uma sephirah “neutra” atuando em equilíbrio. 

Assim a Árvore da Vida, compreendendo essas dez emanações, se desenvolve a partir da mais elevada abstração até o mais concreto material em várias tríades de potências e forças espirituais. 

Masculino, feminino e criança; positivo, negativo e sua resultante mescla num terceiro fator reconciliador.

“A corda de um instrumento musical não pode ser retesada demais, pois assim ela rompe, e nem pode ser frouxa demais, pois assim ela não toca.”

Foi assim que Siddhartha Gautama (Buda Shakyamuni) teve o grande insight do caminho do meio.

A fim de esclarecer a verdadeira natureza da vida, os budistas formularam o conceito do Caminho do Meio, que implica em uma abordagem equilibrada da vida e no controle dos impulsos e do comportamento das pessoas.

O conceito deriva de um princípio, fundamental para a filosofia budista, conhecido como “unificação das três verdades”, exposto por Tient’ai com base no Sutra de Lótus. 


As três verdades são: a verdade da não-substancialidade (ku), a verdade da existência temporária (ke) e a verdade do Caminho do Meio (tyu). 

Embora a vida seja vista com base nesses três aspectos, estes não podem ser separados. Um contém o outro e são fases inseparáveis de todos os fenômenos. Por essa razão, são chamados também de verdade tríplices.

Embora a palavra “meio” denote moderação, o termo não deve ser interpretado como uma atitude passiva, comodista e relapsa.


Tampouco significa que as pessoas devam seguir um curso médio entre dois pontos extremos, mas sim, unificar e transcender a dualidade.

Em um sentido mais amplo, Caminho do Meio refere-se à visão correta da vida ensinada pelo Buda, e às ações ou atitudes que geram felicidade para si próprio e para os outros. 


Por essa razão, o budismo é também referido como “Caminho do Meio”, indicando uma transcendência e conciliação dos extremos de visões opostas.

Esse conceito é exemplificado pela própria vida de Shakyamuni.

Tient’ai na China, afirmava que todos os fenômenos são manifestações de uma única entidade. 

A essa entidade ele chamou de Caminho do Meio. 

Ele revela dois aspectos: um físico e o outro não-substancial. 

Ao negar ou enfatizar apenas um deles, as pessoas estariam distorcendo a visão correta da vida. 

Não se pode, por exemplo, conceituar uma pessoa sem um aspecto físico e sem um aspecto mental ou espiritual. 

Tient’ai esclareceu, portanto, a inter-relação indivisível entre ambos os aspectos.

Dessa visão derivam os conceitos budistas de inseparabilidade do corpo e da mente, do ser e seu ambiente, da vida e da morte, do bem e do mal e muitos outros.

Nitiren Daishonin (uma vertente do budismo no Japão) esclarece: “A vida é, de fato, uma realidade que transcende tanto as palavras como os conceitos de existência e inexistência.

Ela não é nem existência nem inexistência, no entanto, mostra características de ambas. 

É a entidade mística do Caminho do Meio, ou seja, a realidade fundamental. 

Myo é o nome dado à natureza mística da vida, e ho, a suas manifestações.

Rengue, que significa flor de lótus, simboliza as maravilhas da Lei. Se compreendermos que nossa vida neste momento é myo, então também compreenderemos que nossa vida em outros momentos é a Lei Mística”.

Dessa perspectiva, a vida — a energia vital e a sabedoria que permeiam o cosmos e manifestam-se em todos os fenômenos — é uma entidade que transcende e harmoniza as contradições aparentes entre os aspectos físico e espiritual e entre a vida e a morte.


As pessoas em geral tendem a uma visão predominantemente materialista ou então espiritualista da vida.


No Dhammapáda, escritura clássica do budismo, é atribuída ao Buda a seguinte frase: “Aquele que venceu as cadeias do mal, mas também venceu as cadeias do bem, lhe chamo eu, Brahmane.” 

Assim, essas duas obras, de tradições diferentes, dizem respeito à transcendência dos opostos, na qual o indivíduo deve ser, simplesmente, como a Natureza o criou.

Segundo nosso amigo Lúcio/Malprg: “A consciência Jesus é a consciência do homem Jesus, na qual Cristo repousa como um potencial adormecido. Poderíamos chamá-la de “tese”. 

consciência Jesus-Cristo brota quando esse potencial desperta (o despertar da Kundalini no  chacra básico), criando uma dualidade entre a consciência individual e o Self cósmico – é a antítese. 

Finalmente, a consciência Cristo é o resultado final desse conflito dialético, quando os elementos individuais, humanos e egóicos são transmutados pelo contato com o Self e resta apenas a consciência cósmica. Seria a “síntese”. 

É uma descrição que poderia se aplicar perfeitamente à trajetória histórica de Jesus Cristo, mas que também se aplica à trajetória ideal de cada um de nós, não ficássemos enredados eternamente no estágio intermediário da dualidade.”

Também no Taoísmo temos o trio Jing – Chi – Shen essência/substancia/energia espiritual.

E ainda no Taoísmo, Yin significa turvo, nebuloso, escuro, e Yang significa claro, luminoso, ensolarado.

Como todos os opostos o Yin e o Yang são as duas faces de uma mesma moeda, são as polaridades que provocam uma tensão que engendram todo movimento.

Deste modo, tudo está dividido ou repartido  em características Yin e Yang. 

O Yin é passividade, feminino, a água, a terra, é o movimento para baixo e para dentro, que pode ser comparado a Lua, é força centrípeta ou constritiva. Já Yang é o oposto, é atividade, masculino, é fogo ascendente, é o céu, tudo que ascende, e pode ser comparado ao Sol, é força centrífuga ou expansiva.

Todo o Universo é formado de Yin e de Yang, do mesmo modo que toda a matéria é formada de prótons positivos e elétrons negativos.

No equilíbrio destes opostos, está à base do correto sincronismo com o TAO. 

Como os opostos não podem unir-se, exigem um “mediador”, que neste caso resulta ser o TAO.

Como podemos ver, as mais variadas tradições enfocam a mesma dualidade, bem como um princípio moderador e unificador destes opostos, resultando no TAO Chinês, Unus Mundus dos Alquimistas e Psicologia, no Cristos do cristianismo, na consciência Budica, etc, etc, etc, assim, esta terceira coisa, que junto forma uma trindade, é que vem solucionar essa questão dos opostos.



Ref.: Rubedo, 
O Franco-Atirador,
Wikipedia, 
Buda na Web
(Budismo de Nitiren Daishonin)



tao



Nenhum comentário:

Postar um comentário